Relacionamento entre irmãos


A chegada do irmãozinho

Por Ronize Patrícia Silva - 14/05/2007
Psicóloga – CRP 12/02648
Psicoterapeuta infantil
 

De maneira geral, o convívio entre irmãos é positivo porque envolve profundas lições de relacionamento. Mas se não for bem orientado, pode afetar mais tarde a vida adulta, prejudicando as relações afetivas e sociais.
A preparação da criança mais velha no que se refere à aceitação do irmãozinho deve ser iniciada durante a gestação deste irmão que está por vir. É importante que ela desenvolva um relacionamento com o bebê na gravidez da mãe, que participe desta gestação, a fim de que o bebezinho seja amado e bem vindo quando nascer, esta participação pode prejudicar a criança a não se sentir rejeitada e nem enciumada. Algumas dicas úteis que podem ser usadas na gravidez para que a criança receba o irmão:

- Os pais podem levar o filho mais velho para escolher o enxoval, bem como aceitar as suas opiniões.
- Falar que o irmãozinho vai ficar muito feliz em conhecê-lo, que terá sorte por ter ele ou ela como irmão porque ele é uma criança muito boa... Ressaltar, neste momento as suas qualidades.
- Incentivar o filho pequeno a dormir encostando a cabecinha na barriga da mãe grávida, e falar para ele coisas como: “Estou abraçando os meus dois bebês”, isso fará com que a criança se acostume com a idéia de outra pessoa na família, bem como antes do nascimento, e vai incentivá-la a aceitar o bebezinho mais facilmente quando nascer.
- A criança deve acompanhar os pais nas consultas com o obstetra, para que possa ouvir os batimentos cardíacos ou ver o bebê no exame ultra-som.
- A mãe deve assegurá-la que o bebê está seguro e feliz dentro da sua barriga e colocá-la para sentir os chutes do irmãozinho.
- Os pais podem ajuda seus outros filhos respondendo a todas as perguntas e fornecendo o máximo de informações possíveis em cada etapa da gestação.
- Crianças com menos de oito anos devem ter dúvidas esclarecidas com uma idéia geral. Uma boa opção é mostrar figuras de livros sobre gravidez, com ilustrações mês a mês, explicando como o feto se desenvolve à medida que as semanas passam, para ajudar a explicar como um bebê cresce e se desenvolve.
- É interessante neste período mostrar-lhe fotos de quando estava grávida dele, isto vale também para depois do nascimento quando podem ser mostradas as fotos de quando ele tinha o tamanho do irmãozinho, sempre valorizando estes fatos, por exemplo: falando que os pais ficaram muito felizes com a sua chegada, que ele é muito especial por ser o primeiro, que ganhar um irmãozinho não vai representar nenhuma perda, que pelo contrário é um ganho, é um presente, pois o irmão será uma pessoa que vai amá-lo e admirá-lo simplesmente por ser seu irmão.
- Cuidar para que muito pouco mude sua rotina, fazê-lo entender que ocorrerão mudanças, porém os pais devem ficar atentos para que com as mudanças, a criança não se sinta prejudicada nem ameaçada, mantendo a atenção que antes lhe era dispensada, por exemplo, se a mãe tinha o hábito de levá-lo ao colégio, ela deve retomar este hábito logo que seja possível.
- Pedir para que os amigos e familiares ao irem visitar o neném, dirijam-se primeiro ao mais velho para cumprimentá-lo. Pois é muito triste para ele ver todos chegando com presentes e correndo direto para o berço do bebê, isso faz com que a criança se sinta deixada de lado o que poderá prejudicar o relacionamento dos dois posteriormente.

O primeiro filho sente-se enciumado, pois acostumado a ser o centro das atenções dos pais, sente-se “destronado” pelo nascimento do irmão. A criança é surpreendida pela construção de que deixou de receber a totalidade das atenções e que grande parte do interesse que sua mãe e demais familiares lhe dedicavam passou a concentrar-se no “intruso” recém chegado. Essa descoberta a faz sentir-se abandonada, reage, então mostrando-se irritada com o bebê ou tornando-se agressiva e exigente com a mãe.
Toda criança quer sentir que é especial e logo mostra ressentimento se achar que o irmão está sendo favorecido pela mãe, e como algumas crianças tendem a mostrar insegurança quanto ao amor dos pais, podem captar as mais variadas nuances, até mesmo as que os pais não dão importância e se perceberem algum mínimo sinal de preferência pelo outro filho, verão confirmada a predileção em centenas de outros incidentes.
Às vezes, sua luta pela reconquista da posição que ocupava no afeto dos pais toma a forma de uma regressão no comportamento: sem razão aparente rejeita a alimentação, sente dores, engatinha no lugar de andar, volta a apresentar enurese, fala que não consegue ligar o chuveiro ou acender a luz, pois estes são os meios que encontra para atrair novamente as atenções.
Para evitar ou minimizar os conflitos após o nascimento, os pais podem, nos primeiros meses, dar mais atenção ao filho mais velho, pois para o bebê recém nascido basta estar alimentado, limpinho e ganhando colinho e a devida atenção quando chora, enquanto o mais velho, que já possui uma maior capacidade de compreensão, está prestando em tudo o que ocorre para certificar-se que não perderá seu lugar. É necessário que o pai e os outros familiares colaborem com a mãe neste momento, pois ela fica sobrecarregada com os cuidados ao recém nascido.
Uma sugestão eficaz é ressaltar para o irmão mais velho que o tempo dispensado ao bebê não equivale a uma maior quantidade de amor e sim a uma maior necessidade de cuidados e da ajuda mais assídua de um adulto, que às vezes pode até parecer que os pais e as outras pessoas gostam mais do menor, mas que isto não é verdade, a diferença é que o recém nascido não sabe alimentar-se, higienizar-se e mobilizar-se sozinho, como ele que já possui tais habilidades, e que quando ele era pequeno as pessoas fizeram o mesmo, todos vieram para conhecê-lo, a mamãe lhe dava banhos, mamadeira... Conseguindo compreender a experiência desta forma, pode ser convidado a participar dos cuidados do bebê e costuma nascer nestes casos um sentimento de importância e valorização o que irá minimizar ou excluir o ciúme excessivo, a agressividade e a raiva, criando sentimentos de fraternidade, amizade, companheirismo e amor.
O melhor é não demonstrar preferência por nenhum filho, mas apreciar cada um deles, tal como são como indivíduos. Ressaltar a individualidade de cada um, fazer observações construtivas sobre as diferenças, pontos positivos e realizações. Deve-se elogiar, corrigir, presentear, atribuir deveres, tudo de acordo com o que convém a cada um deles, segundo suas necessidades, idades e inclinações individuais.
Valorizar falando para a criança maior – para que se torne consciente – o que ele ou ela já pode fazer por ter uma idade avançada. Falar que o irmão mais velho é muito importante na vida do menor, pois com o tempo poderá ensiná-lo tudo o que sabe. Ensiná-lo a reconhecer que cada um tem a sua vez de ser especial, os filhos amam os pais incondicionalmente e em troca cada um merece alguma atenção extra.
Neste momento as palavras são importantes, mas os atos contam muito mais, abraços apertados, passar mais tempo com ele sozinho, como, por exemplo, organizar passeios exclusivos, levá-lo ao parque, ao shopping, elogiar uma nova técnica adquirida e contar-lhe estórias na hora de dormir.
Esclarecer o que percebem e na hora que percebem o que o filho está sentindo e assegurá-lo de seu amor, por exemplo, a criança faz reina quando a mãe está com o bebê no colo, esta pode falar: “Filho você está gritando porque está sentindo ciúmes, você não precisa mostrar o que sente desta forma, a mamãe e o papai te amam muito e assim que seu irmãozinho dormir nós vamos brincar juntos”. Falar sempre: “Você é nosso filho mais velho e, portanto é muito importante para nós”.
É fundamental que os pais podem ou na impossibilidade dos dois, apenas um deles reserve um tempo só para a criança mais velha, mesmo que seja uma hora por dia, mas que seja um tempo só dela e da mamãe ou dela e de ambos os pais. E durante este tempo voltem totalmente sua atenção para a criança, brinquem com o filho, escutem o que ele tem a falar e conversem quando for o caso, apenas brincar e não fazer mais nada durante este tempo vai ajudar para que a criança sinta-se segura, querida e importante. Eu sempre sugiro isto para os pais, pois esta aproximação diária traz muitos benefícios em longo prazo, pois vais facilitar o diálogo na adolescência e por toda a vida.
Os pais podem dar exemplos da sua infância, porque as crianças adoram ouvir sobre este tema, falando: “Filho eu também fiquei com ciúmes quando meu irmão nasceu, mas com o tempo descobri que não havia motivos para isto, pois os pais amam todos os filhos e meu irmão ficou sendo meu grande amigo e companheiro”.
A criança quer agredir o irmão ou outros familiares, e às vezes até a própria mãe porque por algum motivo sente-se excluída e até mesmo não amada e os pais devem agir rapidamente para tranqüilizá-la reafirmando seu amor por palavras e atos, dedicando-lhe mais tempo e repetindo o tempo todo que a amam. Nunca deixar com que o irmão mais velho trate mal o mais novo, isto é uma lição de vida não permitir que um irmão maior pode machucar o menor o que causará danos físicos a este e com isto virá o sentimento de culpa no filho que concretizou a agressão o que fará com que a situação se torne pior.
O importante é sempre fazer com que a criança participe da vida desse bebê e dar muito carinho para ela, pois o menor precisa mais de cuidados físicos. Não se deve a criança ciumenta do irmão, porque ela pode passar a esconder seus sentimentos e desenvolver ansiedade. Isto é bastante perigoso porque podem acarretar problemas futuros de adaptação e eventuais conflitos de ciúmes na vida adulta.
Os pais não devem tentar compensar a criança ciumenta fazendo todas as suas vontades, todos os pais, têm comportamentos em relação aos filhos que consideram corretos e, no entanto podem estar alimentando a situação. Quando sentem que estão deixando a criança de lado em função do novo irmão, costumam permitir certas condutas que normalmente não aceitariam, às vezes reparam sua culpa enchendo a criança de presentes e doces ou liberando totalmente seus limites, o que não é benefício, o ideal é que os pais deixem a culpa de lado porque tudo que fazem a seus filhos é por amor, e apenas não alterem o que estavam acostumados a fazer com e para a criança, lhe dêem carinho e atenção – o que nunca é demais – e estimulem para que ela participe e auxilie na vida do irmão, fazendo o que já pode fazer como por exemplo, pegar uma fraldinha para a mãe, passar o sabonete, a toalhinha no banho de bebê...
Quando a mudança no comportamento, hiperatividade, agressão física ao irmão menor ou quando a criança regride a etapas anteriores de seu desenvolvimento, como por exemplo, quando ela volta a apresentar enurese ou quando quer novamente a chupeta ou a mamadeira, por um período relativamente longo, torna-se necessária uma avaliação e um acompanhamento psicológico.
Outras indicações de tratamento: vocabulário restrito para a idade, dificuldade para elaborar frases, desatenção, dificuldade de aprendizagem, instabilidade emocional, tristeza, timidez excessiva e dificuldade de brincar.
Ciúme entre irmãos é um sentimento comum e até certo ponto normal, é importante, entretanto, que os pais saibam lidar com as situações de rivalidade, prevenindo o desenvolvimento de conseqüências negativas no futuro. O primeiro passo é preparar psicologicamente o primeiro filho para a chegada do irmãozinho e não diminuir as atenções que sempre lhe dedicaram. Depois se deve fazer com que assuma o papel de irmão mais velho e ajude a cuidar do bebê, não importa se sua ajuda não seja efetiva, o importante é que demonstre interesse pelo irmão. Gratificadas e valorizadas no “cuidado” com o bebê, as crianças percebem que não estão perdendo o afeto dos pais e desta maneira ficam mais seguras e felizes, o que é o desejo de todos os pais.
 

Referências bibliográficas:

Axline, Virgínia Mac. Ludoterapia: a dinâmica interior da criança. Belo Horizonte: Interlivros, 1972.
Bec, H. A criança em desenvolvimento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
De Lamarc, Rinaldo. A vida do bebê. Rio de Janeiro. Bloch, 1990.
Soifer, Raquel. Psiquiatria infantil operativa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.
Supliey, M. Papai, mamãe e etc. O desenvolvimento sexual da criança de zero a dez anos. São Paulo: FTD, 1999.



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