Entrevista com Zilda Arns - Presidente da Pastoral da Criança


A presidenta da Pastoral da Criança, Dra. Zilda Arns, durante sua passagem por Florianópolis em 13 de agosto deste ano*, concedeu entrevista aos pediatras Ana Lúcia Faísca, Cecim El Achkar e Leonice Tobias.

 

Dra. Zilda, o que motivou a Sra. a ser pediatra?

Dra. Zilda: Bom, esta é uma longa história. Eu sempre adorei cuidar de crianças, lá em Forquilhinhas, minha terra natal, meu pai tinha os empregados e eu fugia sempre de casa para cuidar das crianças, adorava pegar neném no colo, e nós também tínhamos, na comunidade, uma paróquia muito organizada, aos domingos, eu sempre ia cuidar das crianças durante as missas, tínhamos um trabalho muito organizado de recreação infantil, enquanto os pais assistiam missa ou palestras, eu cuidava das crianças.

 

Como foi o curso de Medicina?

Dra. Zilda: Desde o primeiro ano de Medicina, eu fui interna do Hospital Nossa Senhora das Graças, e depois passei para o César Perneta, que era o hospital dos indigentes naquele tempo. Eu ia para a faculdade, e toda hora vaga eu estava no hospital, e lá eu trabalhava com o Dr. Raul Carneiro Filho, pediatra, do ambulatório, e da enfermaria.

 

Como foi a sua ida à Pastoral da Criança?

Dra. Zilda: A Pastoral da Criança foi criada por mim e ajudada pela própria Igreja. Dom Geraldo Agnelo, que era Arcebispo de Londrina, foi indicado pela CNBB para me acompanhar, e nós começamos a experiência piloto em Florestópolis, que fica na Diocese de Londrina, norte do Paraná. É uma Paróquia onde 72% da população são de boias frias, trabalham nos canaviais, nos cafezais e na colheita de algodão. Era uma Paróquia muito difícil em todas as áreas, inclusive na Igreja. Nós começamos lá porque era o município de maior mortalidade infantil do Paraná. Se lá desse certo, naturalmente o modelo resistiria em outras partes do país. Então: a metodologia da Pastoral da Criança, que é o mais importante, o “know-how” dessas ações básicas nós já tínhamos na época.

 

Quais eram essas ações?

Dra. Zilda: No pré-natal, no aleitamento materno, na reidratação oral e educação infantil, que avançou muito. Não sabíamos tanto quanto hoje, mas já estava se dando valor à educação infantil e à vacinação. O que precisava criar era uma metodologia para chegar aos bolsões de pobreza e miséria, e as famílias saberem cuidar dos filhos, irem aos postos para vacinar e etc.

 

Que outras ações de saúde a Sra. realizou antes?

Dra. Zilda: Fui diretora de postos de saúde durante 13 anos na periferia de Curitiba e Área Metropolitana, organizei muitos postos de saúde, capacitei muito os funcionários públicos, funcionavam muito bem. E tínhamos, ao lado, sempre clubes de mães para a educação das mães que iam ao posto e iam ao curso. Fui também a primeira a trabalhar na epidemia de cólera que começou em União de Vitória, eu era médica da Secretaria da Saúde. Criei a metodologia para a primeira campanha da poliomelite, no Paraná. Essa metodologia foi tão bem sucedida que ultrapassou a expectativa, a perda de vacinas foi no setor de 4% apenas e o Ministério da Saúde esteve lá durante a vacinação e achou um método muito bom, então, fui à Brasília, no Ministério da Saúde, e o pessoal gostou e até hoje está funcionando esse método. Quer dizer, antes de começar a Pastoral da Criança, eu já tinha muita experiência de Saúde Pública.   

 

Qual a diferença de quando a Sra. Começou a Pastoral da Criança e a Pastoral de hoje?

Dra. Zilda: Eu sempre achava que as mães deveriam saber cuidar dos filhos, que elas poderiam prevenir seus filhos, trocar leite de peito por mamadeira, que, naquela situação sanitária, fazia com que a criança, muitas vezes, morresse. Um dia, eu recebi um telefonema de Dom Paulo Arns, e ele disse: “Olha, Zilda, eu vim de Genebra e o Diretor Executivo da UNICEF me pediu se a Igreja não poderia salvar milhões de crianças da desidratação, ensinando a fazer o soro oral”, que, na época, era o maior avanço cientifico do século. Inclusive, eu administrava a reidratação oral através daqueles saquinhos de soro, ainda escritos em inglês. A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde pediram para eu implantar no Paraná e eu implantei, com Israil Coti, que era professor da Universidade Federal. Eu disse para Dom Paulo, que não era só reidratação oral, mas o aleitamento materno, o cuidado com as gestantes, e com o crescimento; não era só para receber sacola, porque naquele tempo o INAMPS distribuía sacolas. Se tinha sacolas, elas iam para o Posto, se não tinha, elas não iam.

 

É verdade que a metodologia da Pastoral da Criança foi inspirada no Evangelho?

Dra. Zilda: Sim, a metodologia foi inspirada no Evangelho de São João, que trata da multiplicação dos peixes, é igualzinha ao que está escrito no Evangelho do São João. Quando 5.000 pessoas foram atrás de Jesus porque ele tinha Palavra de Esperança e a palavra de esperança a Pastoral sempre tem, e aí, à noite, os discípulos disseram para Jesus: “Mestre, é melhor que o povo se vá, porque estão com fome, já está ficando noite”. E ele disse: “Dai-vos, vós mesmos, de comer”. Não espere sempre do Governo. O povo tem que fazer e pode fazer por si mesmo. A tônica da Pastoral: ensinar, para que a própria pessoa tenha autonomia. Aí, os Discípulos disseram: “Mestre, só temos dois peixes e cinco pães”, aí ele mandou que o povo organizasse em comunidades e mandou trazer aquilo que tinham: os dois peixes e cinco pães. Deu uma mística, abençoou, e ele não foi distribuir, ele delegou. Na Pastoral, se trabalha em equipe, delega, descentraliza, e os discípulos foram distribuindo os pães e peixes, foram distribuindo, e o povo, como diz São João, “sentado na relva verde, tranquilos, foram comendo”. Aí, então, no final, ele disse para os discípulos: “Vê-de se todos estão satisfeitos e sobraram 12 cestos de pães e peixes”, quer dizer: a Pastoral distribui informações e solidariedade, vê se estão satisfeitos, se menos crianças nascem com baixo peso, se tem mães amamentando, vacinas em dia, que não haja desnutridos, e que tenha educação nas famílias.

 

Como é o sistema da informação?

Dra. Zilda: Nós estamos com o melhor sistema de informação em Saúde e Nutrição comunitárias do mundo. Temos uma base de dados, que é o caderno da líder, no qual ela anota os dados. A cada mês, são mandadas, para Curitiba, as informações, nós digitamos, e temos uma programa de computação, que avalia cada comunidade, por ação, além da mortalidade infantil e desnutrição. E aí o computador escolhe frases e retornam às paróquias a cada mês dizendo: “Olha, o aleitamento materno precisa ser mais cuidado”; ou “Visitem mais as gestantes”; ou “Visitem a nutris, no primeiro mês, que ela precisa de apoio, senão ela começa dos outros alimentos”, e tal. Esse sistema de informação aperfeiçoado, inclusive com gráficos, desenhos em quadrinhos que até analfabeto sabe se estão bem ou não. Eu fiz a primeira experiência na Paróquia de São João Batista, em Florestópolis, onde morriam 127 em cada 1000 que nasciam, e hoje está praticamente zero. E, menos de um ano depois, nós vimos que a mortalidade ficou em 28/1000. Quer dizer, na hora em que se formou um cerco em volta de cada criança, de cada gestante, levando ao posto, nós falamos com a maternidade, a única que tinha lá, muito mal equipada, para atender bem, e, quando tivesse um parto mais difícil, referenciar por Londrina. Cada pessoa tornou-se responsável pelas suas crianças. Cada líder cuidava em torno de 10 crianças, e, como era uma rede, a líder nunca se sentia só, se ela tinha dificuldades, ela sabia com quem se comunicar. Essa rede flui em todo o Brasil, em todas as direções, para cima, para baixo, para os lados, e esse é o sucesso da Pastoral da Criança.

 

Existe uma multi mistura. Como é que se chegou a ela?

Dra: Zilda: Nos primeiros 3 anos, eu via muita desnutrição. E o que fazer, desemprego, alcoolismo, drogas, desavenças familiares, desestruturação familiar, como fazer a criança engordar? A criança engorda não só pela comida, mas também tendo apoio, não pegando sarampo e outras doenças imunopreveníveis e tudo que desnutre. Então, não é só a comida que ajuda a nutrição da criança. Isso, na Pastoral, está muito claro. Eu fui convidada pela Associação Nacional de Enfermagem para dar uma palestra sobre aleitamento materno, num Congresso de Enfermagem, em Belém do Pará. Dei a minha palestra de Aleitamento Materno e depois ouvi a Dra. Clara Takaki Brandão, uma japonesa que é nutróloga, falando da experiência dela numa creche no Pará, onde aproveitaram o farelo e o arroz integral. A gente vai para a Alemanha e só come pão integral, e aqui nós desprezamos. E aproveitam-se sementes, sementes de abóbora, gergelim, girassol, essas sementes nutritivas; até casca de ovo, que tem absorção de cálcio muito rápida. Eu a convidei para dar um curso para o nosso pessoal. Era o terceiro ano da nossa Pastoral, já havia grupos em todas as regiões, e ela ficou muito entusiasmada. E ela ficou, por dois anos, trabalhando na Pastoral, dando cursos. Foi muito bom, a gente via os resultados desde o início.

 

E essa multi mistura é usada de forma igual em todo o país?

Dra. Zilda: Não, a multi mistura não é igual em todo o país. É diferente em cada comunidade. Por isso, não pode indicar a multi mistura como padrão. Ela utiliza o que a comunidade oferece. Por exemplo, aqui em Santa Catarina, em Lages, a multi mistura leva amendoim dentro, fica muito gostoso. No Paraná, temos muito com soja. E, no norte do país, nós usamos pupunha, que é uma fruta riquíssima em Vitamina A, abundante na região, transforma a pupunha em pó, e coloca a farinha de milho. Outros lugares mais de trigo, outros farinha de mandioca, de acordo com os costumes. Tem lugar que misturam tudo. Têm-se usado folhas verdes escuras, da mandioca, que foi tão criticada no início da Pastoral da Criança, no entanto, na África, usa, há milênios, a folha de mandioca dentro do feijão. Em Belém do Pará tem a festa da Folha da Mandioca. A multi mistura foi desenvolvendo, pegamos pesquisas da Universidade, as próprias Dioceses, os Bispos, se interessaram, de repente, e começou a misturela, em vez de fazer na mão, então, vamos fazer pra render mais. Hoje, temos algumas pequenas indústrias, que eu não gosto muito, porque eu acho até que o charme da multi mistura é a educação das mães. Eles fazem a multi mistura dentro da comunidade. Elas vão aprendendo higiene, vacinas, e tudo durante a hora da multi mistura, e, na hora em que manda aquela multi mistura pronta, já fica assim uma coisa artificial.

 

Então, Dra., a multi mistura tem também um papel educador?

Dra. Zilda: A multi mistura pode até ajudar a saúde da criança, mas o principal é a educação das mães. Nós temos incentivado não as indústrias, nós temos incentivado as misturelas pequenas, que são utilizadas na própria comunidade, e agora com o Criança Esperança do ano passado, nós utilizamos até energia solar em algumas comunidades. Eu creio que o ser humano é complexo. Como diz a própria Organização Mundial da Saúde, que mudou a definição faz uns três anos: “A saúde é um completo bem-estar, físico, mental e espiritual”. A Pastoral da Criança procura trabalhar com todas essas áreas. Na saúde, na educação infantil, desenvolvendo a fala, desenvolvendo o andar, para ter mais garra na vida, e também o brincar, para não ser só criativo, e o brincar exige muito mais limites. Procuramos desenvolver a fé, a prática da solidariedade humana.

 

Dra. Zilda, vocês fazem alguma avaliação, por exemplo, depois da multi mistura, do crescimento dessas crianças e também com relação a se há alguma interferência na anemia ou não?

Dra. Zilda: O que nós fizemos foi chamar a Universidade de Pelotas, onde o César Victoria é a pessoa referência da OMS para nutrição, porque a Pastoral da Criança não tem muito dinheiro, como sabem, são, no máximo, R$ 0,86 por criança/mês. Ele fez um prévio estudo e disse que era impossível fazer essa pesquisa, como ele iria controlar tantos fatores. Fator da atenção da mãe que amamentou; tomou as vacinas. Como iríamos dizer que a multi mistura era a responsável por isso ou não. E, além do mais, as comunidades que ele viu, todas estavam contaminadas. Umas das mães comiam todo dia a multi mistura, outras uma vez por semana, mas todo mundo fazia alguma coisa com a multi mistura. É difícil controlar uma comunidade da Pastoral da Criança com multi mistura, com outra sem multi mistura pura. Então, o Dr. César disse que não poderia fazer um trabalho cientifico para isso. O que é que a Pastoral faz? A Pastoral, vamos dizer, pega a criança desnutrida, tira a fotografia, aí começa a dar a multi mistura e com todo o élan de ações básicas. Eu sempre digo: não pense que a multi mistura faz milagre. A multi mistura, com muitas outras ações, é que faz o milagre, inclusive, com o Posto de Saúde ajudando. Muitas vezes, tem problema, o Posto de Saúde ajuda. Tem uma infecção crônica, o Posto de Saúde ajuda. Mas se tira a fotografia antes e se tira a fotografia depois, e incrível, quanto melhora.

 

Em quanto tempo demora?

Dra. Zilda: Melhora em poucos meses. Seis meses depois é uma outra criança. Você não diz é aquela mesma criança, com desnutrição de terceiro grau, as vezes com dois anos sem poder andar e, de repente, está daquele jeito. Eu realmente acredito na multi mistura, mas tenho certeza de que não é ela sozinha. Nós temos até casos de Prefeitura: que fomos comprar a multi mistura, e dar no Posto de Saúde. Sem a motivação das mães, elas muitas vezes jogavam para as galinhas. Concluindo, precisa de todo um trabalho de educação, de envolvimento tal para que elas inclusive façam, como tudo na vida.

 

A Sra. sabe que nós temos 32.000 pediatras no Brasil, eu penso que a grande virada foi com ações básicas, como a Sra. colocou a história do soro de reidratação e a motivação das comunidades. A Sra. não acha que os pediatras estão um pouquinho fora do foco, em relação a essas ações básicas, quer dizer, com tantos pediatras, nós não teríamos que ter uma infância melhor, um índice de mortalidade menor? O que é que aconteceu? É na formação? É no trabalho? É a Sociedade Brasileira de Pediatria que não enfoca isso direito? Por que a relação quantidade - aplicação não funciona?

Dra. Zilda: Eu creio que muitos pediatras trabalham na Pastoral da Criança, como voluntários, eu diria que são centenas e talvez milhares. Um exemplo até extraordinário, eu fico até comovida em ver tantos pediatras envolvidos até na coordenação da Pastoral da Criança. Agora, eu penso que, como em todas as áreas, falta uma visão holística de conjunto. A criança dentro do contexto da família, da comunidade, a cidadania da criança. Então, o pediatra está muito voltado em cima do doente, que está aí na mesa e pronto; como o obstetra está muito preocupado em fazer o pré-natal e o parto, e não de preparar a gestante para o aleitamento materno. Cada um faz um pedaço, sem pensar que esse pedaço leva a outro. É essa formação holística que falta ao pediatra e ao obstetra, como aos outros. Mas eu também vejo que já existe uma mudança, de consciência, talvez mais cursos. Eu fiz Pediatria Social na Universidade de Antioquia, na Colômbia, há muitos anos, e era uma visão mais social. O pediatra fica atendendo diarréia, atendendo pneumonia, e o aleitamento materno, incentiva o aleitamento materno? Agora, já diminui um pouco, mas nós tivemos muitas pressões. As nossas líderes diziam: “Pois é, a gente fala tanto para as mães darem só o peito, e o pediatra manda dar mamadeira”. Muitas vezes, o pediatra acha mais fácil, porque a mãe diz: “Não é bom eu dar mamadeira? A criança chora de fome...”. O pediatra se deixa levar e já receita uma mamadeira. Em vez de fazer o correto, que é: só no peito até seis meses, e continuar ainda até um ano, dois anos.

 

E quem deve promover essa mudança?

Dra. Zilda: Essa mudança deve ser promovida, no nível das Universidades, ao nível de todos os Centros de Pediatria. Uma das coisas que eu sinto muita falta é, realmente, o pediatra e os hospitais serem mais envolvidos com a humanização. Por exemplo, o Hospital Amigo da Criança é fantástico, maternidade segura, todos os materiais podem ser colhidos na Secretaria da Saúde, se não tiverem. O Ministério da Saúde fornece em abundância. Eu tenho notado que os pediatras que passam no Hospital Amigo da Criança, principalmente faculdades, que formam alunos, têm que formar direito. Eles formam alunos que vão a um berçário, a vida inteira esse aluno vai pensar em berçário. Tem que ter alojamento conjunto, mas não só alojamento conjunto, tem que ter o Hospital Amigo da Criança, onde a criança brinca, ou então ter voluntários que cantem, e que contam histórias. Quer dizer, um hospital humanizado, em que, desde as zeladoras, desde o porteiro, todos aprendam sobre aleitamento materno.

 

Quem é essa equipe?

Dra. Zilda: A equipe não é só pediatra e a enfermeira. Todos, desde o administrador, deveriam passar por um curso de Hospital Amigo da Criança. E eu aqui convocaria todos os pediatras, de Santa Catarina e do Brasil, que honrem o seu diploma de Pediatra, e procurem transformar seu hospital em HAC. É uma maravilha a gente ver como o próprio teatro, teatro de bonecos, o canto, o contador de histórias. A criança, às vezes, toma menos remédio para a dor, para tudo, porque está se distraindo, de uma forma interessante, e se desenvolve, enquanto está no hospital.

 

Como era na sua infância?

Dra. Zilda: Quando eu era criança, naquele tempo, não havia vacina contra sarampo, e, quando uma começava, a nossa mãe colocava todos os filhos debaixo do cobertor para todos pegarem sarampo, na mesma hora, porque então era um hospital em casa. Aí, a primeira coisa que ela fazia era convocar o irmão dela, o tio Jorge, que era o contador de histórias. Ele vinha contar histórias para nós. Ela servia a melhor comida, o que nós mais gostávamos. Aquela referência, de ser tratado com dignidade, com cidadania, hoje as pesquisas demonstram que isso é o melhor. Nós temos tantos grupos voluntários trabalhando em Hospitais de Pediatria, eu acho que isso deveria ser natural, e massificado no país. Todos deveriam ter essa mentalidade. Agora, o aleitamento materno, tem que ser preservado, como um tesouro, porque realmente é a primeira escola do amor, do dialógo, além de tão precioso, não só para reduzir a mortalidade infantil, mas também para toda a vida das pessoas.

 

Como foi que a Sra. se sentiu com a indicação para o Prêmio Nobel da Paz?

Dra. Zilda: A indicação da Pastoral da Criança para o Prêmio Nobel da Paz, pelo presidente Fernando Henrique, para mim, foi muito honroso. Quando o Ministro José Serra me falou, numa reunião do Conselho Nacional de Saúde, onde eu represento a CNBB, que iria pedir para o Presidente indicar a Pastoral da Criança porque realmente é de tirar o chapéu, porque é uma maravilha de trabalho, no qual as pessoas vão ao Brasil, está lá a Pastoral da Criança trabalhando, quietinha, trabalho silencioso, sem alarme, salvando crianças, é uma maravilha. Aí, eu fiquei quieta, porque eu não gosto de estourar os foguetes antes da hora, fiquei muito quieta e esperei. Depois de um mês, eu vi ele falando em público. Isso valoriza muito o trabalho da educação dentro das famílias. Como Pediatra Social, eu sempre digo que a família é a base. A mãe tem que saber como educar, porque às vezes ela não faz por mal, ela faz por ignorância. E a classe pobre precisa de muita solidariedade humana. Às vezes, a mãe até sabe, mas ela se sente tão só, com a baixa estima tão ruim, que ela não faz. Então, a rede de solidariedade fica animando. As pessoas, em grupo, se salvam mais do que as pessoas isoladamente.

 

A Sra. percebe que essa indicação é uma recompensa?

Dra. Zilda: Esse Prêmio Nobel da Paz é uma recompensa para esse trabalho voluntário de mais de 15.000 pessoas. Dessas pessoas voluntárias, mais de 90% são mulheres, e mulheres pobres. É uma recompensa. Por outra também, recompensa a todos que trabalham como voluntários, não é só a Pastoral da Criança. Todo o trabalho voluntário é um trabalho de expressão máxima e cidadania. Quando a pessoa, além de cuidar do seu serviço, ainda dá mais para aqueles que não podem ser incluídos.

 

A gente tem dito que os pediatras são, em parte, responsáveis pelo aumento da violência nos adultos, porque os pediatras e a Pastoral, juntos, dimiuíram a mortalidade infantil, mas essas crianças não têm trabalho quando crescem. Elas vão para o mercado, que não as absorvem. Na verdade, o pediatra salvou vidas, mas, lá na frente, criou um problema maior. Como continuar esse trabalho, como colocar essas crianças que sobrevivem agora, e não sobreviviam antes, no mercado de trabalho?

Dra. Zilda: Eu creio que o pediatra cometeu a melhor ação que ele pode fazer salvando a vida das crianças, e, junto com a Pastoral, a gente cria o que eu diria um amadurecimento político. A Pastoral fez com que os governos pensassem mais em melhorar a situação dos pobres. Por exemplo, o programa e redução da mortalidade infantil no país surgiram por causa dos dados da Pastoral da Criança, em 1994, quando houve, no terceiro trimestre, uma subida da mortalidade infantil, e saíram na Folha de São Paulo os dados da Pastoral, foi alarme em todo o Brasil. Os jornalistas iam à casa dos Governadores no sábado perguntar o que eles iriam fazer para diminuir a mortalidade infantil. E, aí, foram criados os núcleos de redução da mortalidade infantil. De repente, se criou, assim, uma “cultura”: nós temos que cuidar dos pobres, porque isso fica feio, nós temos uma mortalidade infantil tão alta. E, cuidando da mortalidade infantil, está cuidando da inclusão. Então, nas escolas, hoje, nós temos bolsa-escola. Muita coisa melhorou, nós estamos com um índice de 97% das crianças nas escolas no Brasil. Uma coisa inédita. A mortalidade infantil, quando eu fiz Saúde Pública na USP, em 77, era de 80 por 100. Hoje, é 34 por 100. Da Pastoral da Criança é menos de 13 por 100. Os indicadores infantis melhoraram muito.

 

O que falta aos pediatras?

Dra. Zilda: Os pediatras são muito positivos para o País, o que eles precisam é ter uma visão mais holística. Quer dizer, a criança dentro do seu contexto de família, de comunidade. A criança dentro do seu contexto de necessidade de socialização e enfrentamento de limitações nas áreas e risco. Essa visão mais holística precisa desenvolver. Mas eu acho que os pediatras são dos profissionais que têm dado maior contribuição no país para as melhorias sociais.

 

Pelo fato de ser um programa da Igreja Católica, a Sra. encontra algum obstáculo em relação à divulgação ou até à implantação de certas comunidades? Como a Sra. poderia ou como a gente poderia ter acesso, para aproveitar a própria estrutura existente? Sem ter o aspecto político social, e até o enfoque religioso, que são obstáculos que sempre encontramos?

Dra. Zilda: Com muito prazer, eu respondo a essa pergunta, porque a Pastoral da Criança já nasceu ecumênica. Ela é da Igreja Católica porque é um organismo de ação social da CNBB. Mas, desde a primeira experiência, ela tinha lá outras religiões, Assembleia de Deus e outras. Fui, com a Irmã Efigênia, fazer uma visita aos Pastores. Com seis apostilas, ainda datilografadas. Pedi para lerem as apostilas. É um trabalho suprapartidário, ecumênico, e conseguimos atrair as outras religiões até hoje. Nós temos até coordenador Diocesano de outra religião. Porque nós fazemos 08 encontros regionais no Brasil, e, da Amazônia, uma das Dioceses tinha uma coordenadora Diocesana que era da Assembleia de Deus. Uma coisa inédita. E eleita. Nós respeitamos, nos damos muito bem, elas se sentem maravilhosamente bem na Pastoral. Essa, por exemplo, já estava há 12 anos trabalhando na Pastoral da Criança, e todo mundo gostava muito dela. Então, a Pastoral da Criança é ecumênica, desde o início, ela é suprapartidária. São diversas religiões, desde o Governo, até o PT. Inclusive, aqui em SC, três partidos políticos estão me dando prêmios diferentes. Então, todas as classes sociais apoiam a Pastoral da Criança. E os sem-terra nos defendendo em Assembleias, nos defendendo em Conferências Nacionais de Saúde. A Pastoral da Criança atravessou todas as linhas de preconceito. Estamos com os ricos, com os pobres, com todas as religiões, e com todas as raças. Mais de 50% são negros, ou de origem negra.

 

E a Administração Sanitária?

Dra. Zilda: Em relação à Administração Sanitária, eu posso dizer até com certa liberdade, porque eu recebi o Prêmio Internacional de Melhor Administradora Sanitária das Três Américas, da Organização Panamericana de Saúde, em 1994, em Washingtown. Foi a maior honraria profissional que eu poderia imaginar de receber. Então, eu posso dizer, como Administradora Sanitária, reconhecida internacionalmente, que bom Administrador Sanitário é aquele que, quando vai à comunidade, é capaz de fazer. E incentivar bem aquilo que é capaz de fazer e completar com aquilo que é mais difícil. Então, por exemplo, numa comunidade, se já tem Pastoral, ou pode ser incentivada, a Pastoral, como eu vejo agora muito dizer: “Olha, eu não tenho Pastoral, eu queria a Pastoral na minha comunidade, como é que eu faço?”. Organzar a Pastoral da Criança, ajudar a organizar, dar o apoio. Às vezes, falta gente para treinar em aleitamento materno, em vacina etc. Ah, isso é função pública, e nós vamos dizer, nós replicamos o saber. Nós partilhamos o saber. O bom Administrador deve ter essa visão, e não matar iniciativas comunitárias. Isso é, eu diria, uma ignorância administrativa. Por exemplo, nós pesamos as crianças. Então, é bom que agentes comunitários venham e nos ajudem, ou, então, se tem muita coisa que fazer, que façam outras coisas. O coordenador do Programa de Saúde da Família, que eu apoiei muito no Conselho Nacional de Saúde, porque tudo que é para melhorar a situação da família tem que ser bem vindo. Então, deve-se preocupar em desenvolver a Pastoral, fazer parcerias.

 

Onde a Pastoral é mais avançada?

Dra. Zilda: Por exemplo, nós somos muito mais avançados em Educação Infantil. Então, nós fazemos parcerias, nos ajudamos. Agora, eu também diria que não basta ser médico de família, como se médico de família resolvesse todos os problemas de Saúde Pública, isso é absurdo. É uma fase, e deve ter o respaldo do Posto de Saúde, especializações, e do próprio hospital. Há muitos anos, eu participei de reuniões na Sociedade de Pediatria, inclusive, o Congresso de Pediatria foi ao Rio de Janeiro, em que nós tivemos, três dias antes, debates sobre como melhorar as oportunidades, de fazer um trabalho que fosse realmente resolutivo. A Pastoral da Criança faz o que pode dentro das famílias. Se nós não podemos, o médico de família faz o que pode. Se ele não pode, ele tem para onde encaminhar. E assim, ... até o Hospital. Com isso, nós diminuímos os casos simples que acabam sendo graves por causa da falta de atenção, e que lotam os hospitais, terrivelmente. Os hospitais, todos mal pagos, tendo que trabalhar muito, para ganhar pouco, em vez de serem menos pacientes e atenderem melhor e ganhar melhor. E os Postos de Saúde também, e os médicos e, naturalmente, a comunidade também. Então, a resolutividade é muito importante. Nós trabalhamos muito, com resolutividade e com integralidade.

 

E sobre o Novo Guia do Líder?                                                                                                                                                        

Dra. Zilda: O nosso Novo Guia do Líder é considerado pela própria Organização Mundial da Saúde, que esteve na África do Sul, onde nós expusemos, estavam todos os financiadores da África lá e a OMS, que quiseram fazer, e nunca conseguiram fazer, um manual onde tivesse registro de nascimento, aleitamento materno, e todas as ações básicas, a fé, a solidariedade e, no fundo, uma educação política. Como é que, tendo tanta diarréia, o Prefeito não coloca água que preste? Tudo isso num manual simples, popular. É o nosso Guia do Líder. Estamos treinando, no Brasil, 5.000 pessoas com o Novo Guia do Líder. Já terminamos, inclusive aqui em SC, já treinamos todas as Dioceses que são Micro-Regiões. E essas Dioceses vão multiplicando essas capacitações. No mínimo de 42 horas, depois tem que continuar naturalmente, mais 42 horas, a Líder está treinada para a sua função. O Serviço Público poderia muito entrosar conosco. A Pastoral, o Serviço Público, os Hospitais. Não fomos criados para nós; nós fomos criados para ajudar a saúde do povo. Assim, trabalhávamos juntos nessa visão. Não olhando para o próprio umbigo.

 

Dra Zilda, a gente sabe que, depois de 2 anos, a maior causa de mortalidade infantil são os acidentes. Existe alguma estratégia agora, já que a Pastoral já está encaminhada nessas ações básicas, algumas ações básicas que visem minimizar esse problema?

Dra. Zilda: A prevenção de acidentes é um dos focos das 22 ações básicas. Principalmente a prevenção de acidentes domésticos. O fogão, o bule, a faca, o garfo, o poço que, nas áreas rurais, muitas vezes são descobertos. Nós trabalhamos muito com palafitas, principalmente à beira dos rios, ao Norte, Nordeste. Nós tivemos uma Diocese, Umaitá, onde fizemos uma avaliação das mortes das crianças menores de 1 ano. Tinha morrido mais afogados do que todas as doenças junto, porque moravam em palafitas, a criança engatinhando, às vezes, caía dentro da água, e, quando iam ver, já tinha morrido. Realmente, acidente é uma coisa gravíssima, e eu diria que, de 5 anos em diante, morre mais por acidente do que por doenças, praticamente. E as pessoas se preocupam muito com as doenças e não com os acidentes. Então, existem muitos pediatras que, quando fazem a consulta, já, desde toda consulta, fala em acidente: “Deixem a criança deitada de lado quando arrotar”; “Cuidado quando as crianças pegarem as coisas que podem engolir e se afogar”. A Educação por acidente pode ser feita pela mãe. Existe um grupo, a que eu até pertenci, da Redução de Acidentes e Violências, no Conselho Nacional de Saúde, que está se organizando, fazem parte a Polícia, o Ministério da Justiça, o Ministério da Educação, o Ministério do Trabalho, o Ministério da Saúde. Porque acidentes têm que serem vistos já dentro da escola. Quantos meninos atravessam a rua e morrem, ou ficam aleijados. Absolutamente evitável. Às vezes, trocando litro de refrigerante por ácido e outras coisas em lavanderias. Que altíssimo custo tem tudo isso para o setor da saúde. Eu creio que a prevenção de acidentes realmente deve ser uma matéria para a formação de todas as pessoas, desde a escola, o professorado, a polícia, as faculdades, não só de saúde e de outras áreas, porque há um problema muito grande em nosso país.

 

Outra coisa paralela é a violência doméstica. Isso é uma das coisas que afeta todos, a família, a criança, e desestrutura tudo. Existe alguma ação na Pastoral, alguma estratégia, algo novo em relação a esse problema, que parece não respeitar as classes sociais; pode ser média, baixa ou alta?

Dra. Zilda: Eu fico às vezes pensando e tenho dito, não adianta abrir tanta delegacia de mulheres, mais presídios, que são importantes, mas a gente tem que fazer prevenção primária. Que nem na Pediatria, se você não vacina, você vai abrir o hospital para pôr os sarampentos lá dentro. É um absurdo, tem que fazer prevenção. A Pastoral da Criança sempre trabalhou na prevenção da violência, desde que nasceu. Mas, há dois anos, quando a ONU declarou o Ano Internacional contra a Violência, nós resolvemos reunir diversos profissionais e vermos como fazer um caderno, um folheto, para servir de base de capacitação às nossas 150.000 lideranças. Fizemos dois livrinhos, um se chama Auto-estima. Existe muita baixa auto-estima na nossa comunidade.

 

O que faz de mal a baixa auto-estima?

Dra. Zilda: A baixa auto-estima leva, muitas vezes, à violência, a pessoa não se valoriza; e, por outro lado, tem outro livrinho que se chama A Paz Começa em Casa; identificar sinais de violência sexual na criança, e outras situações como pancadas e alcoolismo. Ganhamos o Prêmio dos Direitos Humanos, dado pela França, e, com esse dinheiro, nós fizemos um levantamento das violências que são mais frequentes em nossas comunidades. Fizemos um vídeo sobre as cinco maiores violências. E isso tem em todas as paróquias, onde tem a Pastoral da Criança, esse vídeo é maravilhoso. Ganhou primeiro lugar como Vídeo Social Brasileiro, e, depois, em Nova York, Vídeo Social Internacionalmente, foi aplaudido de pé. Nós acreditamos, realmente, que o que eles precisam é gerar atitude da paz. Quer dizer, trabalhar com a criança, desde cedo, antes de nascer, com um bom parto, aleitamento materno, educação infantil, respeito das mães. Quando fiz minha tese de Saúde Pública, eu escolhi os esquimós. Os esquimós são um povo muito feliz. Quando eles cantavam, eram o povo mais feliz do mundo. Quando entrava uma criança, eles todos ficavam quietos, para esperar a criança falar. Quando a criança fazia uma pergunta ao adulto, eles se acocoravam, para ficar na altura dos olhos da criança, era tão respeitada a criança, que ela era respeitosa.

 

Como é no Brasil?

Dra. Zilda: Aqui, o pai está assistindo à televisão, a criança pergunta uma coisa e ele continua vendo a televisão, não olha. São coisas que não educam a criança, e ela se torna desrespeitosa. Muitas vezes, o pai entra bêbado, não adianta, naquela hora, a mulher xingar. Atitudes de paz que possam superar as violências, esse tipo de trabalho de promoção da paz e a prevenção contra a violência são muito mais importantes. Como nas doenças têm: promoção da saúde, a prevenção das doenças a cura e a reabilitação. É o controle epidemiológico. A violência é a mesma coisa. A promoção da paz, a prevenção das violências, e, depois, a cura e a reabilitação que são feitas pelos presídios.

 

Qual foi a sua maior decepção, como pediatra e como trabalhadora com a criança?

Dra. Zilda: Como pediatra, eu fui sempre muito discreta, acho que ninguém sabia que eu existia no mundo. Mas quando vejo os pediatras que não aproveitam a oportunidade de também educar a mãe, eu fico muito triste. Como Pediatra, eu gastava mais tempo conversando com a mãe do que propriamente clinicando. E elas adoravam, porque eu era uma Pediatra jovem. Eram filas de mães. Eu entrava 7:15 e saía depois do almoço, 13h. E os outros, em 2h de atendimento, já estavam saindo. No ano passado, em dezembro, fui chamada a dar uma palestra num bairro de Curitiba, de Uberaba, e a Igreja estava cheíssima, eu perguntei: “Quem de vocês consultou comigo?”, e a Igreja inteira levantou o braço. “Por que é que vocês gostavam de consultar comigo?”. “Por que a Sra. ensinava bem a gente”. Então, o pediatra tem que ter papel de educador. E, quando eu vejo, não só o pediatra, mas qualquer médico, que dá receita sem ter olhado o cliente, sem ter escutado o cliente, eu fico muito preocupada. Acho que todos nós profissionais temos que ser educadores. Na medida em que nós somos educadores, nós estamos promovendo e prevenindo.

 

Qual foi a sua maior alegria, a sua satisfação profissionalmente?

Dra. Zilda: A maior satisfação foi, naturalmente, ter construído a Pastoral da Criança. Porque, na Pastoral da Criança, eu pude colocar todo meu conhecimento científico, minha experiência de vida, e minha vontade de fazer o mundo melhor, em prática.

 

E qual é o seu desejo que ainda não foi concretizado?

Dra. Zilda: Meu desejo é que todos os Pediatras nos ajudem, em todo o Brasil. Quer dizer, que os Pediatras realmente deem um pouquinho, como realmente já estão dando. Têm Pediatras que eu fui visitar em muitas áreas, no interiorzão. Ele dá de graça para a Pastoral da Criança, e se organizam. E eu pergunto a eles se estão contentes, e estão muito contentes. Cada um pode, duas vezes por mês, ou uma tarde por semana, ajudar a Pastoral, na avaliação, na organização. Isso é muito importante. Sem ter uma visão assim: eu vou ajudar a Pastoral para depois ganhar as eleições como Prefeito. Porque isso também acontece, querer aproveitar politicamente. E a gente também tem que dizer “Que bom!”, porque os políticos também são importantes para a Pastoral da Criança e para o Brasil. Então, tudo depende da intenção de melhorar a situação de saúde da população.

 

O que a Sra. espera do futuro da Pastoral da Criança e do Brasil?

Dra. Zilda: Eu gostaria muito que a Pastoral da Criança continuasse sempre ecumênica, suprapartidária, sem fronteira de raças, de religiões, de classes sociais e que ela pudesse ser útil em todos os bolsões de pobreza e miséria do Brasil, para promover a inclusão social. E, do Brasil, eu tenho plena consciência de que é um país importantíssimo no presente, e, no futuro, vai ser um grande líder internacional, sem dúvida, não só por ser um país de tamanho continental, 8.511.000 km², pelas riquezas naturais que possui, que é uma das maiores riquezas do mundo, por não ter catástrofes, e por ter um povo de índole muito solidária, muito bom, aqui não tem guerras. A população, com saúde e com educação, pode fazer a Unidade Nacional. Eu creio que é o que o país precisa para ser um país respeitado pelo resto do mundo, o que já está acontecendo, é realmente promover a saúde, a educação e o acesso à oportunidade, iguais para todos. Os pobres têm que ter acesso à saúde, acesso à educação, à internet, ao desenvolvimento à música, ao esporte, à arte, porque, aí, eles vão se desenvolver, e vão conseguir ter igualdade de condições de concorrerem às Universidades, de concorrerem aos serviços etc. E, com isso, a gente procura melhorar a desigualdade social. O Brasil é realmente o país mais desigual da América Latina, é, talvez, o segundo do mundo. Quanto mais concentração de renda, maior a tendência para a violência. Isso está provado, inclusive com pesquisas, quando um município tem uma desigualdade social muito grande, quer dizer, pequeno número de ricos concentram 50% da riqueza e 50% dos pobres 14 ou 15% da riqueza, tem muito mais violência nesses do que quando o município é todo mais ou menos riquinho, rico, médio, por poucos pobres, ou, então, vamos dizer, todo ele pobre. A revolta acontece quando você não tem o que comer, e os outros têm tanto. Isso gera violência, e essa violência faz com que o médico não queira ir a um bolsão de miséria, porque se sente agredido. E cada vez a fossa vai se tornando maior.

 

Muito obrigado, gostamos muito de entrevistá-la, prazer em conhecê-la!

Dra. Zilda: Um abraço a todos os colegas do Brasil, fé em Deus e pé na tábua!

 

*Entrevista publicada na edição 19 da Revista Pediatria Dia a Dia, em outubro de 2001.




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