Cecim El Achkar, médico e educador


Floripa Total – Dezembro 2008

 

Filho de imigrantes libaneses, médico pediatra, nascido no Paraná, casado, pai de 4 filhos, Cecim El Achkar conta que se apaixonou por Florianópolis antes mesmo de conhecê-la, ao ver um postal da Ponte Hercílio Luz, com todo aquele marzão ao redor. Decidiu, então, que era ali onde queria viver e trabalhar. E assim fez. Está na Ilha há mais de trinta anos e considera Floripa o lugar ideal para viver, seguido por Camboriú, para onde iria caso resolvesse sair daqui um dia.

É, acima de tudo e antes do cidadão exemplar, um educador, para quem a solução para todos os nossos problemas passa pela educação. Usa, aliás, a sua especialização médica, principalmente, para educar não só os seus pacientes, como os pais, paralelamente ao tratamento médico.

O jornalista Mauro Júlio Amorim passou boa parte da tarde em sua clínica, onde ele começa a trabalhar às 7h e de onde só sai, normalmente, doze horas depois, às vezes, já atendendo a segunda geração, isso é, os filhos dos seus antigos pacientes.

 

Floripa Total – De onde você veio e por que veio?

Cecim – Vim fazer o vestibular aqui. Quando tinha 12 anos, eu vi uma foto da Ponte Hercílio Luz e, ao fazer 17 e escolher um lugar, não tive dúvidas e vim para cá. E não saí mais daqui.

 

FT – Quem são os seus pais? Você é descendente de libaneses, não?

Cecim – Meus pais são libaneses, do norte do Líbano. São cristãos ortodoxos e meu avô, inclusive, era um padre ortodoxo. Lá, o padre só fica realmente padre depois dos 40 anos, casado. Quando falta um padre na comunidade, ele é eleito, como se faz com um prefeito. Ele foi eleito. Meus pais vieram de lá casados e meu irmão mais velho já era nascido. Vieram em 1948, atraídos pela ideia de que aqui todo mundo enriquecia em cinco anos e depois voltava rico para lá. Então, meu pai vendeu tudo, inclusive as pulseiras de ouro da minha mãe e comprou as passagens de segunda classe num navio italiano, onde vieram comendo macarrão três vezes por dia, durante 28 dias. Depois, foram para Piraí, onde ainda tenho um irmão, que foi eleito, agora, prefeito da cidade.

 FT – O que quer dizer o seu sobrenome, Achkar?

Cecim – Significa “o loiro” (risos).

 

FT – Fale sobre sua família, aqui,

Cecim – Eu sou casado desde 3 de setembro de 1976, tenho 4 filhos, dois homens e duas mulheres; meu filho mais velho tem 31 anos e é advogado. A segunda é médica, dermatologista, o terceiro é administrador e especializado em computação e a última filha está cursando Administração e fazendo um curso de Estética. Aliás, ambas estão cursando Estética. Assim, quando for mais velho, posso ter quem me faça ficar mais bonitinho.

 

FT – E de graça! Diga-me: Pediatria é uma vocação legítima?

Cecim – É uma das poucas especialidades que você tem de gostar muito. Se não gostar muito, não resiste. Não há como resistir à choradeira e à reclamação diária das mães sem ficar estressado. Tem de gostar muito, e eu gosto muito do que faço. Considero a Pediatria muitíssimo importante, porque, além de cuidar da saúde, também propicia a educação. Depois dos pais, o pediatra pode ser o melhor educador que existe. O pediatra, na verdade, tem três funções: a de prevenir, de curar e de educar.

 

FT – Até que ponto os pais atendem às recomendações do pediatra?

Cecim – Não é fácil, mas eles estão entendendo que, ou eles entram na linha e educam os seus filhos, ou eles destroem os filhos. Criança tem de ter limite, criança tem de ter de ter limite e criança tem de ter limite! Criança gosta de quem lhe impõe limites. Impor limites e até castigar, é um ato de amor! Dizer o não, às vezes, é muito mais importante do que dizer o sim. Dia desses, ouvi um ex-ministro da Educação dizer que, “se a televisão não se dedicar também à educação, a nossa sociedade vai se destruir por completo”. E ela está encaminhando aceleradamente para isso. Após 33 anos de Pediatria, já cuidando da segunda geração, eu vejo que as famílias que se preocuparam com a educação produziram filhos que estudaram, se formaram e viraram bons e úteis cidadãos. Se quisermos produzir adultos felizes, teremos de ter uma infância dura na educação.

 

FT – Qual a melhor idade para começar a educar?

Cecim – Entre seis meses e dois anos. Quando começa a engatinhar, até largar a fralda. É ali que você educa a criança. Depois disso, será muito difícil. Às vezes, vejo crianças muito pequenas que gritam demais e chegam, até, a levantar a mão para bater na mãe. Se não cuidar, é assim que se destrói uma família. O exemplo é a única forma de educar, por mostrar a diferença entre o ter e o ser. Os pais sempre serão referência para os filhos. Pais bem educados gerarão filhos bem educados e bons. De uma macieira não nascerão cocos! Hoje, a humanidade está doente. Praticamente, todo mundo tem depressão, colesterol... Toda a informação dada hoje tem por base uma falsa felicidade; uma felicidade baseada no consumismo desenfreado. Quando você produz uma boa energia e a manda para alguém, essa energia, fatalmente, retorna a você mesmo. Quando as pessoas entenderem que fazer o bem é o que existe de melhor para ser feliz, tudo vai melhorar. O mundo todo será muito melhor.

 

FT – Qual a sua crença?

Cecim – Olhe, eu fui educado na igreja católica apostólica romana. Fui seminarista durante quatro anos e tenho uma visão crítica. Mas frequento a igreja, faço as minhas orações todos os dias. Tenho o meu Deus e acho que todas as igrejas podem ter problemas e defeitos, porque são regidas por homens. Mas acho que tem de tirar o que há de melhor em cada igreja, em cada sociedade, em cada grupo. Então, eu procuro fazer o bem e agradecer o que recebo de bom.

 

FT – Além da sua clínica, você também atende em hospitais?

Cecim – Eu sou funcionário do Hospital Florianópolis há 30 anos. Atendo na emergência todo esse tempo. Hoje, temos menos crianças doentes, graças à prevenção, às vacinas... Gosto de atender lá. Gosto do meu trabalho, duas vezes por semana, nas segundas e quintas, do meio-dia às 20 horas. Atendo as crianças lá, como atendo aqui, na minha clínica particular. É muito gratificante você ver os frutos do que plantou. Eu fico feliz com isso.

 

FT – Isso é ser cristão?

Cecim – Isso é ser humano, eu acho. Eu sempre digo que nós nos tornamos mais humanos com a educação. A grande função dos pais é fazer com que aquela criancinha se torne humanizada. O cristão, a essência, é de cada um. Você pode ser humanizado sem ser cristão. Pode ser maometano, tibetano... de qualquer religião. Estando bem, não importa a sua religião.

 

FT – O que mudou na Pediatria, desde que você começou? Mudou muita coisa?

Cecim – Mudou muito. Quando eu comecei, a gente atendia cinco, seis casos de sarampo por dia, dois, três casos de meningite, crianças morriam. As salas de espera do Hospital Infantil ainda viviam cheias, quando começamos, em 1980. Hoje, não tem mais poliomelite. Você ainda encontra pessoas de muletas ou cadeira de rodas, mas, normalmente, acima dos 30 anos. Hoje, não tem mais sarampo, difteria, por causa das vacinas. Desidratação quase desapareceu. A pessoa tem mais informação, principalmente.

 

FT – E o que piorou?

Cecim – A obesidade, que aparece tanto aqui na minha clínica, quanto no hospital. Tanto existe criança obesa pobre, quanto rica. É problema básico de educação. Eu costumo dizer aos pais: se você ama o seu filho e quer o bem dele, trate de fazê-lo emagrecer e voltar ao peso normal. Não há nada pior, para uma criança, do que ser obesa, numa sociedade como a nossa, porque ela será totalmente discriminada, afastada do grupo. Começa a ter vergonha, porque é gorda, esconde-se dentro de casa e come cada vez mais, na frente da televisão. É preciso haver uma alimentação adequada, impor limites, porque assim é a vida.

 

FT – As escolas não deveriam, também, preocupar-se com isso, com a alimentação mais saudável? Não há porcarias demais nos recreios?

Cecim – Na escola pública, não tem mais isso e isso é maravilhoso. Comem o lanche comunitário, feito por nutricionistas, sem gastar. É proibido vender refrigerantes, salgadinhos. Eu acho que, na escola privada, quando o pai paga a mensalidade, deveria estar incluído, aí, o lanche, que seria igual para todas as crianças. Os nossos legisladores precisam pensar nisso, no futuro dessas crianças.

 

FT – Você tem um livro publicado. Um só? Fale sobre ele.

Cecim – Esse livro surgiu logo que eu me formei. Havia a necessidade de falar com as mães, de ensinar. Era uma espécie de guia. Começou com um livro fininho, de poucas páginas e foi sendo ampliado. Acabou sendo um trabalho maior, que foi chamado “Da gravidez à Amamentação”. Contém tudo o que uma mãe precisa saber para se preparar e preparar o seu bebê. Ele já tem 28 anos e continua sendo usado. É um livro que tira as dúvidas e aponta soluções. Costumo entregá-lo às novas mães, dizendo: “A senhora leva. Se gostar, a senhora paga. Se não gostar, devolve”.

 

FT – Vêm mais livros por aí?

Cecim – Estou há dois anos ensaiando o segundo, a continuação, mas falta tempo. O meu trabalho como pediatra, na linha de frente, não me deixa tempo. Eu gosto tanto de atender crianças, que não consigo sentar-me para escrever. Mas o próximo já tem até nome: “Do amamentar ao caminhar”. Quero que tudo o que eu escreva traga, de imediato, algum proveito para quem está lendo.

 

FT – O que gosta e o que não gosta em Florianópolis?

Cecim – Gosto de andar nas ruas, de sair a pé, de ir à praia, de caminhar na praia, encontrar pessoas... Eu me alimento de pessoas, de conversar. Florianópolis é muito rica nesse aspecto. Eu jamais poderia morar no mato. Só não saio mais, porque não posso. Antes das sete da manhã, eu já estou aqui, e fico até as seis ou sete da noite. Gosto dos cinemas daqui. A cidade não perde, também, em matéria de comida. Temos excelentes restaurantes. Sair e passear é muito bom. O que eu não gosto em Florianópolis é da ponte entupida, algumas pessoas que não se educaram e buzinam, não param, às vezes, no sinal.

 

FT – E, se um dia tivesse que sair daqui, para onde iria?

Cecim – Uma cidade da que eu gosto demais é Balneário Camboriú. É uma Florianópolis um pouquinho mais evoluída. É plana, tem um clima bom, as pessoas podem andar por ela, é perto de tudo. Perto de Florianópolis, de Blumenau, de Curitiba. É uma cidade bem cuidada.

 

FT – Você conhece a terra dos seus antepassados? Já foi lá?

Cecim – Não. É o meu sonho, há dez anos, visitar o Líbano. Mas cada vez que estou para ir, estoura uma guerra por lá. Se Deus quiser, no próximo ano, eu pretendo ir até lá, conhecer o lugar dos meus ancestrais, de onde vieram os meus pais. E, também, visitar a Terra Santa, que é o berço do cristianismo, das três religiões. Lá, deve ter alguma coisa diferente e eu quero sentir isso.

 

FT – Você, que lida com o ser humano, desde o comecinho da vida, acha que raiz é uma coisa muito forte, que continua sempre plantada no mesmo lugar? Que pode dar voltas e mais voltas ao Planeta, mas que está sempre fixada no mesmo lugar?

Cecim – Eu acho que sim. Que não é preciso ir morar lá, mas é necessário ver de onde eu vim. É a raiz chamando. Eu acho que, em todo o mundo, as pessoas sempre têm a tendência de voltar para as suas raízes, nem que seja para conhecer. Isso é o ciclo da vida. A gente sai e volta. Sai para o mundo e, quando começa a sentir-se mais ou menos realizado, começa a bater a saudade, e volta.

 

FT – Isso tem uma idade certa?

Cecim – Acho que é por volta dos quarenta, mais ou menos.

 

FT – É o que Sartre chama de “a idade da razão”...

Cecim – É isso. É quando se fica mais compreensivo, mais tolerante, pensa mais...

 

FT – Você está falando para um jornal que tem uma distribuição dirigida, que chega gratuitamente à casa das pessoas e a gente normalmente procura um público esclarecido, que toma decisões e que influencia a sociedade. Há alguma coisa que eu não perguntei e que você gostaria de dizer?

Cecim – Primeiro, paternidade responsável. Essa é a frase-chave. Com tantas opções, com tantas formas de evitar ter filhos, é preciso que as pessoas pensem muito antes de fazer filhos. Eu chego a achar que deveria ter uma lei que obrigasse as pessoas a passar por determinados caminhos até chegarem à paternidade. Que, por exemplo, fizessem cursos.

 

FT – Como tirar carteira de habilitação?

Cecim – Isso! Carteira de habilitação para ser pai. Porque, depois de ser pai e de ser mãe, você tem de, obrigatoriamente, ter certas responsabilidades. Não pode fugir delas. Você não é mais uma pessoa totalmente livre. Então, é preciso pensar muito antes de se tornar pai ou mãe. Porque, depois, quem sofre as consequências é aquele ser que foi colocado no mundo, sem ser consultado. O grande problema do mundo atual é, então, a paternidade e a maternidade responsável. Na ora em que a mulher saiu para trabalhar fora e não colocou alguém no lugar dela, começaram os principais problemas. Não sou contra o trabalho e as atividades da mulher, mas, se ela vai ter de sair para trabalhar fora, alguém precisaria ficar no lugar dela, com os filhos. Ou, então, ela dividir com o marido e se meia mãe e meia profissional; e ele ser meio pai e meio profissional. Enquanto não existir esse tipo de acordo, os filhos vão sofrer muito.

 

FT – A sociedade vai aprender isso um dia? Você tem esperança?

Cecim – Como tudo, com muito sofrimento e, talvez, só quando chegar ao fundo do poço e quando sobre muito pouca gente. As desgraças atuais estão acontecendo na família. São mães que jogam filhos pela janela; um filho que mata o pai... Está havendo uma desagregação; as famílias estão se auto-destruindo através da morte.

 

FT – Você é a favor do aborto?

Cecim – Não, não sou. Não é preciso chegar lá. Hoje, existem dezenas de métodos para não engravidar. As pílulas são de graça, as camisinhas são de graça, a imprensa foi aberta e informa. A maternidade e a paternidade responsáveis serão o grande fator de mudança no mundo. Ou, então, essa ausência vai ser a grande desgraça que estamos acompanhando desde agora.



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