Filhoes e doenças


Dr Cecim El Achkar

Pediatra

 

O sonho de todo ser humano é ter filhos lindos, saudáveis, cantores, misses, doutores, astronautas, artistas. Todos fazendo sucesso. A palavra-chave é o sucesso. Quanto mais, melhor. Pensando bem, será que nós nos preparamos adequadamente para sermos pais? Na vida, levamos mais de um ano para aprender a andar. Para ler e escrever, sete anos. Começamos a nossa vida profissional com 25 anos de idade. E, para ter um bom filho, geralmente, não recebemos sequer uma informação ou formação adequada. Quando muito, fazemos um roteiro básico de conhecimentos, que não nos dá condições ideais de criar um filho.

O primeiro passo é adequar o casal a um só pensamento – ter um filho. Os dois têm de estarem convictos de que querem ter o filho e assumir todas as consequências desse ato. Um vai deixar de olhar para o outro e os dois vão olhar na direção do filho. Tomar consciência de que filho entra na vida da gente e nunca mais sai. Assume-se um compromisso para toda a nossa existência.

A primeira manifestação de rejeição surge já nos primeiros meses de gravidez, com o aparecimento de vômitos e desejos exóticos. Após o nascimento, os sinais são “cólicas”, choros, leite fraco, leite que não desce. Normalmente, a mãe não aceita passar do papel de filha para o de mãe. O desenvolvimento no engatinhar, andar, falar e comunicar-se do bebê sofre um atraso importante, quando há qualquer distúrbio com o casal. As fases em que a criança não quer comer são, também, uma exteriorização de distúrbios de relacionamento entre pais e filho.

O xixi na cama, o roer de unhas, os tiques nervosos – piscar os olhos, mexer com a face –, o comer demais, os pesadelos, o não dormir a noite toda, o acordar à noite, para ir à cama dos pais e o fato de se “afinar” constituem, ainda, manifestações de problemas de relacionamento entre os pais e a criança. A criança que não vai bem na escola demonstra, em geral, a insegurança como consequência do desequilíbrio em casa. Há casos de crianças que se machucam muito, vivem cortando-se, quebrando perna, braço, com crises constantes de bronquite, falta de ar sem tradução clínica que podem estar sinalizando desarmonia no lar. Admite-se, ainda, que algumas infecções de vias aéreas e algumas diarreias banais, sem alguma causa plausível, sejam provocadas por desencontros domésticos.

Não se deve pensar que todas as manifestações aqui referidas sejam produzidas por distúrbio de ordem emocional. Primeiro, a criança deve ser sempre vista pelo pediatra, que vai decidir se o problema é de causa física ou psíquica. O que vale ressaltar é a importância da harmonia no lar e entre os pais, assim como os males que os desencontros podem trazer para a criança. A grande maioria desses problemas deixaria de existir se os pais tivessem maior consciência das consequências terríveis, para os filhos, criadas pelos desajustes do casal.

Os pais devem abrir mão de seus egoísmos e procurar entender que as crianças não pediram para vir ao mundo, mas cabe a quem as gerou dar-lhes mais carinho e menos carinho; dar mais conversa e menos presente; mais disciplina e menos televisão; mais abraços e beijos e menos doces e refrigerantes; um não para aquilo que não deve ser feito, mesmo que custe uma lágrima contida.

Deve-se abrir mão um pouco do lazer e participar um pouco mais da vida do filho. Perguntar-lhe o que fez a cada dia, como foi na escola, se tem amigos. Perguntar à criança como ela vê o pai. Se tem algo no pai de que não gosta. Entender que ela busca sempre imitar a atitude e não as palavras. O exemplo é que move as atitudes das crianças. Filhos, melhor seria não tê-los, como disse Kalil Gibran, mas, se temos, vamos assumi-los, para não os ver morrer jovens, sem ideais, atormentados pelo cigarro, pela bebida e pela droga, sem amor à vida.



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