Febre: mitos e verdades
Dr Cecim El Achkar
Pediatra
A maior preocupação dos pais, sem dúvida, é ver o seu filho com febre.
O que é febre, afinal de contas? A febre é a elevação da temperatura corporal, em graus variados. A febre é uma reação do organismo a algum tipo de agressão, que, na maioria das vezes, é consequência a uma infecção.
O recém-nascido pode ter febre se for agasalhado em excesso ou ficar num ambiente muito quente. No primeiro mês de idade, principalmente, se o bebê tiver menos de três quilos, não mantém a temperatura: agasalhar-se muito, ele esquenta e tem febre; se deixar muito à vontade e em ambiente frio, ele resfria e tem hipotermia.
A desidratação, que é o resultado da perda de muito líquido pelo organismo, sem reposição, também pode dar febre. Às vezes, fatores emocionais também podem levar à febre: perda dos pais, viagem dos pais, ida da criança à creche, troca de empregada, alguém muito ligado à criança que vai embora. Nesse caso, a criança só apresenta febre, sem nenhum outro sintoma ou sinal. Todavia, esse diagnóstico deve ser de exclusão, isso é, quando forem afastadas todas as causas orgânicas, e a febre se repetir sempre que a mesma situação ocorra na vida da criança, normalmente, entre um conflito com ela. A principal causa da febre ainda são as infecções, principalmente as virais, bacterianas e outras, nesses casos, geralmente, a febre, se acompanhada de outros sinais e sintomas.
Consideramos febre baixa ou febrícula quando a temperatura varia entre 37.5°C e 38.6°C, e febre alta, acima de 39°C. A temperatura mede-se com um termômetro clínico ou eletrônico, que é colocado debaixo do braço, na região da axila. Se for termômetro clínico, deixamos 5 minutos, se for eletrônico, até soar o alarme. Os termômetros do tipo fita não são muito confiáveis.
A febre é um dos mecanismos mais importantes de que o corpo lança mão para enfrentar uma infecção. Quando temos febre, nosso corpo produz substâncias importantes para combater o organismo, seja vírus ou bactéria, ou outro agressor. Portanto, é errado, e até um prejuízo para o organismo, tirar a oportunidade de ele usar essa arma importante e combater a febre até 39ºC, porque, até essa temperatura, o organismo produz defesas importantes e de maneira rápida para enfrentar a infecção que está atacando o corpo.
Quando uma criança tem febre, ela deve ser levada ao pediatra, para ser examinada e descobrir que tipo de infecção essa febre produz nessa criança. Acima de 39ºC, podemos usar uma medicação para diminuir a febre, sempre com a orientação do médico. Febre com calafrios significa que o corpo está perdendo calor e, portanto, a criança precisa ser agasalhada, para manter o calor e a febre diminuir de intensidade. A febre em si não traz grandes prejuízos à criança. Ela, normalmente, fica mais calada, recolhe-se espontaneamente a sua cama, vai deitar, a respiração fica mais rápida, ela pode sentir calor ou frio. Quando a temperatura ultrapassa os 41°C, aí sim, pode ocorrer um problema mais sério, consequente à própria febre, mas essa temperatura é raríssima.
A convulsão febril, que é uma grande preocupação, aparece, geralmente, nas primeiras 6 horas do quadro infeccioso e aparece “independente” do grau da temperatura, pode aparecer a até 37ºC. Geralmente, em crianças de 6 meses a 3 anos, pode manifestar-se por cianose labial (os lábios ficam roxos), e a criança revira os olhos, baba muito, treme, perde os sentidos, os pais têm a sensação de que ela vai passar-se. Essa crise pode aparecer com qualquer temperatura – desde os 37ºC até os 40ºC. Não existe relação entre o grau da febre e o surgimento ou não da crise convulsiva. Quando ela aparece, na grande maioria dos casos, começa junto com o quadro febril, e, muitas vezes, repete-se em outros quadros.
Os banhos frios e as compressas são totalmente contra-indicados, pois podem produzir choques térmicos, causando calafrios que elevam a temperatura ainda mais. O álcool é proibido – pode levar ao coma por absorção. Quando existe febre com calafrios, a criança deve ser agasalhada, pois vai suar e a temperatura baixará. Sempre que a temperatura estiver acima de 39ºC, o contato com o médico deve ser mantido para saber que conduta tomar.
Se a criança apresentar crise convulsiva, a conduta é levá-la, rapidamente, ao hospital mais próximo, sem fazer medicação. Se estiver com temperatura abaixo de 38,5ºC, deixá-la num ambiente bem arejado. Procurar não medicar sem orientação médica. Caso, além da febre, a criança estiver caída, gemente, ou tiver outro sinal ou sintoma, levá-la ao hospital ou posto mais próximo ou procurar o pediatra de confiança.
Mais importante na febre é saber o porquê dela. Se a infecção é viral ou bacteriana. Se for viral, o tratamento é apenas sintomático e é aguardar o ciclo dela até terminar. Se a infecção é produzida por uma bactéria, podemos usar o antibiótico, sempre sob orientação e acompanhamento médico. Nunca se deve administrar antibiótico na farmácia ou por indicação de leigos, porque acham que a criança vai melhorar com essa medicação. O antibiótico é uma das armas mais importantes que a medicina lança mão, mas deve ser usada por indicação e acompanhamento médico. Criança com febre deve ser muito bem examinada e acompanhada, para descobrir a causa da febre e fazer o tratamento adequado.
Enfim, a febre é um ato de defesa do corpo e, portanto, deve ser acompanhada para saber por que o corpo está precisando produzi-la, não basta baixar a febre, porque isso vai contra o corpo até 39ºC, o que mais importa é saber qual a sua causa e tratá-la. Mais vale uma boa prevenção do que um belo diagnóstico tardio.
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