Dez anos de pediatria


Dr Cecim El Achkar

Pediatra

Em dezembro último (1990), comemoramos dez anos de dedicação à criança. Somos a primeira turma formada no Hospital Joana de Gusmão, em Florianópolis. Somos onze profissionais trabalhando pela saúde da criança catarinense.

Quando, em 1979, iniciamos a nossa residência médica no Hospital Infantil Edith Gama Ramos, do qual fomos a última turma e fechamos o hospital, o número de casos de sarampo era, em média, três a quatro por dia. Hoje, depois de onze anos, nós vemos três a quatro casos por ano. Os casos de difteria (crupe) eram, em média, um por semana. Hoje, excepcionalmente, atendemos um por ano. Os casos de meningite e meningococcemia (a meningite disseminada no corpo e na pele) eram, em média, um a cada quinze dias, e morriam todas as crianças com meningococcemia. Hoje, o número reduziu para um caso a cada dois meses e muitos conseguem salvar-se porque, atualmente, conhece-se muito mais sobre a doença. Outro fator importante foi a inauguração da Unidade de Terapia Intensiva, onde são tratadas só crianças graves. Isso ocorreu há dez anos e foi a primeira vez a funcionar com Santa Catarina. Na UTI, consegue-se salvar mais de 50% das crianças graves que morriam àquela época. Muitas crianças com traumatismo de crânio morriam, pois não havia especialista no hospital e não existia aparelhagem para fazer o diagnóstico com a tomografia e a angiografia.

Os casos de desidratação de segundo grau, que são crianças que perdem mais de 10% do líquido do corpo, e que se trata com soro na veia; atendia-se mais de dez por dia. Até o último mês de novembro, havia reduzido em mais de 80%. No mês de dezembro, começaram a aparecer, de novo, crianças desnutridas e desidratadas; o índice de desidratação tende, neste verão, a crescer em relação aos anos anteriores. Sinal de grande recessão atingindo a camada mais pobre da população.

As pneumonias (pontadas), naquela época, eram mais de cinco por dia, hoje, acontece uma redução em mais de 50%, principalmente, das pneumonias mais graves, como derrame pleural.

A amamentação ao seio aumentou muito nesses anos. Há onze anos, existia uma grande mentira, difundida pelas fábricas do leite em pó, que criavam um tal de leite maternizado, preconizado, na época, como melhor que o leite materno, divulgava-se que as mulheres as quais amamentavam os filhos ao seio ficavam com o seio deformado. As mães secavam o leite na própria maternidade e saíam com uma lata do tal leite milagroso. Nesses anos todos, houve uma luta muito grande, para se voltar à origem e mostrar, de novo, os fatos reais e as vantagens do leite materno. Hoje, temos mais mães bem orientadas e mais assumidas em relação aos seus filhos.

Toda essa melhora deve-se a vários motivos: primeiro, o aumento do número de postos e hospitais atendendo a população; segundo, ao seu aumento de pediatras capacitados, com conhecimento mais profundo de doenças como meningite, traumatismo de crânio, as doenças gastrointestinais e a desidratação. A vacinação, também, teve um grande avanço, hoje, as pessoas sabem que devem vacinar seus filhos e vacinam.

A desidratação foi a doença que teve a sua evolução mais espetacular nesses dez anos. As campanhas de rádio e TV foram muito bem entendidas pelos pais que sabem, na grande maioria, preparar um soro caseiro e como comportar-se diante de uma diarreia e vômitos de seu filho.

Hoje, as pessoas têm mais informação sobre as doenças, como prevenir e quando procurar recursos. Os profissionais da área médica e os hospitais estão mais equipados e preparados para cuidar da saúde das crianças. Nesses dez anos, diminuiu o número de leitos de pediatria na Grande Florianópolis e nem por isso faltam leitos, como acontece, normalmente, com os adultos. Os pais têm um senso muito apurado da prevenção, e levam seus filhos, regularmente, ao pediatra até um ano de idade, para aprender a cuidar das doenças e preveni-las.

O que piorou, nesses dez anos, e de maneira ascendente, foram as mortes por acidentes, sejam elas de carro, moto, atropelamento, quedas de edifícios, afogamentos e ingestão de substâncias tóxicas. Agora, a grande campanha deve ser dirigida em favor da prevenção dos acidentes e da humanização do trânsito. Os acidentes não escolhem idade, sexo, cor, posição social; eles atingem a todos igualmente.

Após dez anos dedicados à criança, podemos dizer que a pediatria, em Santa Catarina, deu um grande avanço, reduzindo a desidratação de segundo grau; as doenças preveníveis com vacinas estão nos limites toleráveis, as mães voltaram a amamentar seus filhos ao seio. Os homens assumem melhor seus filhos e o lar. Tratamos melhor as doenças como meningite, traumatismo de crânio e as doenças intestinais.

Espera-se que, em pouco tempo, os problemas com os acidentes também possam estar em limites toleráveis. Somos, então, obrigados a refletir um pouco sobre essa corrida do dia-a-dia, a respeito mais do ser do que do ter, para sermos mais felizes.



‹ voltar

Especialidades



Notícias



Você na Clínica Tio Cecim