A verdadeira saúde pública


Dr Cecim El Achkar

Pediatra

A saúde física e mental constitui o maior bem que o ser humano almeja em todos os momentos de sua existência. A saúde global é o mais importante objetivo perseguido por todos nós. “A saúde vem em primeiro lugar”, diz um velho ditado.

Será que nós levamos esse ditado a sério? Será que nós cuidamos verdadeiramente da nossa saúde? Será que o médico cuida da nossa saúde? Será que o governo cuida da saúde do povo?

Os avanços tecnológicos contribuíram efetivamente para melhorar a nossa saúde? Os novos métodos de diagnósticos fizeram jus ao seu preço, melhorando a nossa saúde? Os novos medicamentos que estão sendo produzidos trazem alguma melhora para a nossa saúde? Estamos tapando o Sol com a peneira? Estamos nos enganando uns aos outros e a nós mesmos? Podem ter a convicção de que sim.

A maior causa de mortalidade infantil – a desnutrição – poderia ser reduzida em mais de 60% apenas pelo uso do leite materno até um ano de idade. A água e o esgoto não tratados são os grandes causadores de doenças em todas as idades. Na grande maioria das cidades deste país, não existe tratamento adequado para a água e o esgoto.

O lixo que poderia ser reaproveitado e gerar riquezas (adubo, gás natural) é deixado a céu aberto, produzindo um odor insuportável e uma série de doenças.

As infecções hospitalares que são, hoje, responsáveis pelo grande número de mortes, sequelas, internações prolongadas e os maiores custos hospitalares, poderiam ser reduzidas em mais de 50% com o simples ato de lavar as mãos, cada vez que o profissional de saúde manuseasse um doente diferente. Como consequência, economizaríamos milhões de reais por ano e milhares de vidas seriam salvas.

Os postos de saúde estão localizados nos centros das grandes e médias cidades, justamente onde mora a elite que busca o serviço de saúde privado. Os pobres, que precisam de assistência médica, moram na periferia da cidade e, para consultar, necessitam tomar uma ou duas conduções, para vir até o posto de saúde, e ainda vir a primeira vez para marcar consulta e a segunda vez para ser atendido. Para acabar com as filas e melhorar, efetivamente, o serviço prestado, a solução é lotar os profissionais de saúde onde a população carente reside. Colocar a saúde pública à disposição dos que realmente precisam dela, instalando, nos bairros onde as comunidades são carentes, os postos de atendimento médico.

No Brasil, morrem milhares de pessoas ao ano por não estarem imunizadas. A vacina existe no país e até se estraga porque não há crianças nos postos para recebê-la. A solução é criar o dia mensal de vacinação. Nesse dia, todos os meses, os meios de comunicação, as entidades de classe, as associações comunitárias, todas as forças vivas da sociedade e os profissionais de saúde dedicar-se-iam a divulgar, organizar, chamar e realizar a vacinação em todas as crianças que necessitam dela. Em menos de um ano, teríamos a erradicação de várias doenças que já não ocorrem na grande maioria dos países no mundo. E, como consequência, milhares de crianças deixariam de morrer ou ficar aleijadas todos os anos.

A universidade está aí, com todo o seu potencial, sendo desperdiçada. Vamos aproveitar a força viva da juventude para colocá-la a serviço da comunidade. Por que não deixar uma fase do curso dedicada, exclusivamente, à comunidade? Escolher-se-ia um ou mais bairros, dos mais necessitados e pobres, para instalar o grupo de trabalho, multiprofissional, de acordo com cada Universidade. É possível levantar as necessidades de cada comunidade e resolvê-las com trabalho dos alunos, que estão no topo do seu idealismo, orientados por professores competentes e dedicados. Em poucos anos, teríamos outra comunidade, totalmente educada, e universitários úteis e conhecedores da verdadeira realidade brasileira.

Finalmente, os meios de comunicação poderiam colaborar, divulgando e educando a população a respeito de como obter e manter a verdadeira saúde, sem tabus, sem folclores e sem mentiras. O Brasil não pode mais conviver, diariamente, com o alto índice de mortalidade. É preciso dar um basta para, sairmos do Terceiro Mundo.

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